A pedidos, abro mais uma vez aqui no Shoe-me as portas da fabulosa Galeria de Arte Tosquista. O sucesso foi tanto que muitas obras nem chegavam ao Mercado Livre e já eram compradas em lances absurdos de R$3,00 a R$ 8,00. Apesar de tudo, eu, como marchand de arte do movimento tosquista, mantenho sempre a missão de buscar o que há de melhor no mundo das belas artes. A humanidade tem o direito de conhecer estas obras antes que algum colecionador as compre e esconda para sempre embaixo da cama.
Título: Trípede Técnica: Terra batida sobre compensado Esse homem é complacente com o defeito físico de sua amiga. Em um momento acolhedor, ele sussurra em seu ouvido "não me importo que você tenha três pernas". Quem se importaria? O artista abre essa discussão e não há como discordar: pessoas com três pernas ainda possuem um coração. Ou dois. Tanto faz.
Título: Balé na granja Técnica: Clara de ovo batida com colorau Um ovo que nunca se tornará galinha e sonha em entrar para o Ballet Bolshoi. Essa é a história por trás deste quadro. Milagrosamente o ovo criou pernas, braços e pés. Todos os membros são deformados, mas não podemos esperar muito de um ovo com pernas. O ovo não tem rosto, mas tem cabelos, obviamente pintados em sua casca. O ovo também não tem olhos, mas aí reside a beleza da obra: Ele não sabe que veio antes - o ovo bailarino ou a galinha mutante?
Título: República universitária alienígena Técnica: Tinta fluorescente sob luz negra Alienígenas universitários com 4 metros de altura observam a imundície que restou na mesa de jantar depois da festa de ontem. Entre copos cheios de catuaba e pedaços de salsicha, sentem uma fome tremenda. "Quem vai limpar essa merda?" diz o alien estudante de filosofia ao centro da mesa. Não há resposta. Todos estão com uma ressaca absurda, enrolados em toalhas e lençóis, procurando por um copo limpo pra beber água. Em primeiro plano, Zylandor, a massa verde disforme, intercambiário do planeta Ghogha, se refastela com o que restou de erva no gigantesco bong laranja.
Título: Do outro lado da linha Técnica: giz de cera derretido
"Alô? É do adevogadu do senhor Waldisney? Fala pá ele que eu existo. Fala pá ele que a lei do copiwáit pode í pas cucuia. Fala pá ele que a obra dele acabou assim ó, qui nem eu. Eu sou a Mínie. A Mínie!"
Como roubaram quadros da pinacoteca aqui de São Paulo, pensei em pegar o gancho e abrir mais uma vez as portas da Galeria de Arte Tosquista aqui do Shoe-me. Lá fui eu buscar nos meandros da Internet obras de arte de gosto duvidoso. Minha fonte, como merchand, é o vasto porão de talentos chamado Mercado Livre.
Aí vi um anúncio inusitado, que me chamou atenção pelo seu conteúdo anarquista. Primeiro vejamos a obra:
O movimento Pop Art é bem caracterizado nesta tela. A deformidade do objeto em questão fica evidente, que na verdade é uma caricatura de uma caricatura. O além do além. Além do aceitável. Os beiços vermelhos, voando pelo espaço vazio, são beijos que a Betty Boop do sétimo círculo infernal manda para você. A impressionante Neo-Tipografia, com letras aparentemente desenhadas pelas mãos de um esquilo vesgo dão o toque niilista, na metalinguagem que se faz necessária. Sim, se não escrevessem ali Betty Boop, não teríamos certeza se aquela figura é mesmo a personagem ou se é na verdade, um feijão fantasiado de drag-queen. Descrição da obra, retirada diretamente da página da internet: A belíssima obra/quadro/tela, sem nenhum tipo de sujeira (se você desconsiderar o que está pintado nela) está à venda por 15 reais, e faz parte do acervo do usuário "babalu30". Você pode pagar em 10 vezes de R$ 1,50, sem juros.
Curiosa que sou, fui ainda vasculhar quais outros objetos "babalu30" reservou para a nata cult do Mercado Livre. Separei as melhores peças:
A Barbie edição especial "Minha amiga mendiga cachacenta": 35 reais!
Gatinho mofado com cartola rosa: 6 reais!
Eu-não-sei-que-porra-é-essa por apenas 5 reais!
O objeto mais caro de "babalu30", descrito do Mercado livre como "Ele é bem feio". 60 reais. Peça de colecionador.
São pessoas como babalu30 que têm essa visão vanguardista de trazer objetos tão encantadores a preços módicos. Objetos que sem dúvida, seriam jogados em um aterro sanitário e agora PODEM SER SEUS! Não perca a oportunidade!
Andei ocupada com um projeto. Aliás, o projeto já está no ar e quero partilhar com vocês:
Exibição de instalações do Estúdio Colletivo de Design com textos meus. Quem quiser e puder ir, fica na Galeria Melissa até 30 de maio, na rua Oscar Freire 827, em São Paulo.
O tema é a "Mintologia" uma brincadeira com deuses imaginários contemporâneos. Uma boa dica de passeio com bom design e bom humor! A entrada é gratuita.
Páscoa não é minha festividade favorita. Algumas pessoas podem estranhar e inclusive achar que eu não sou um ser humano, e sim algo criado em um tubo de ensaio no laboratório da Monsanto: admito que não gosto de chocolate. Na verdade não gosto muito de doces.
Mas a questão do post não é isso. É lembrar que a Páscoa, a data mais doce do ano, não é feita só de toneladas de cacau nem de matérias clichê na TV de como "se faz um ovo de chocolate" e todo mundo batendo a cabeça em ovo naquelas lojas com o teto forrado de embalagens brilhantes.
São os malditos artesanatos. Nada contra a arte de fazer algo em casa com cola quente, biscuit ou papel alumínio. Creio que existe muita gente talentosa que faz artesanato. O fato é que invariavelmente o artesanato tosco invade nossas vidas também neste período. Certa vez minha ex-sogra me presenteou com um coelho de pelúcia horrendo e deformado. O bicho vesgo segurava um ovo de chocolate hidrogenado (aquele que você mastiga, cola no céu da boca e só sai bochechando com querosene). Agradeci e depois de 5 taças de vinho tive a impressão que aquele pequeno animal repleto de cola quente no focinho se transformaria no coelho assassino do Monty Python Em Busca do Cálice Sagrado. Sim, ele viria direto pra minha jugular. Joguei o coelho pela janela e o cachorro da vizinha se esbaldou.
Para exemplificar, são estas propostas de artesanato que me incomodam:
Quer dizer que uma coelhinha cheia de metanfetamina na cabeça é supostamente bonitinha? Uma coelha drogada segurando uma cenoura libidinosamente próxima à sua genitália é uma coisa meiga?
A garrafa PET é uma maldição moderna. Se não está por aí poluindo o planeta, é utilizada para fazer as peças mais cagadas de artesanato do universo. Isso é pra ser bonito? Uma garrafa cortada e amassada cheia de bombons é um bom presente? Uma caixa de sapato forrada com anúncios de carros usados é mais atraente que este "pote ecologicamente correto". Detalhe para a tampa: "se eu colar um pedaço de cartolina nem vai aparecer a marca da Schin Cola....". Me poupem.
E aí está. A pessoa sabe desenhar um círculo e acredita que pode fazer uma pintura bonita, com sombras, texturas e profundidade. Dava para a cabeça deste coelho ser um pouco mais torta? A pessoa pintou um pedaço da cabeça e esqueceu que do outro lado tinha mais uma orelha "ah se eu puxar mais um pedaço ninguém nota" e lá vai. E o coelho parece ter crescido em meio aos resquícios de um acidente atômico. Nunca vi um coelho sentado assim, muito menos um coelho com dedos "deprimidos" nos pés. Aquilo atrás dele me deixa em dúvida: seria o rabo do animal ou o coelho de Chernobyl está botando um ovo de espuma? Nem comento o que este troço marrom "escorrendo" da tampa da caixa me faz lembrar, mas tem a ver com algo que bebês deixam em suas fraldas.
Aí estou eu calmamente buscando obras no Mercado Livre e encontro esta imagem:
Uma gueixa hermafrodita.
Eu olhei e pensei "mas eu já vi isso antes". O artista que assina César, queria na verdade fazer uma reprodução deste quadro de Gustav Klimt:
"Dancer" é o nome da obra.
O problema não é a cópia tosca em si, mas a descrição que a acompanha:
"Nos lhe oferecemos uma selecao larga de quadros a oleo de qualidade de topo decorar sua casa ou escritorio a precos por atacado. Os quadros a oleo que nos oferecemos voce e alguns dos quadros a oleo de qualidades mais altos que voce pode achar em qualquer lugar com melhor valor por seu dinheiro. POR FAVOR NOTE: NOSSOS PRECOS SEMPRE NAO SAO OS MAIS BAIXOS, MAS POR FAVOR NAO CONFUNDA NOSSAS PINTURAS DE QUALIDADE DE TOPO COM ALGUMAS DE OUTRAS BAIXAS REPRODUCOES DE QUALIDADE QUE SAO OFERECIDAS POR ALGUNS OUTROS VENDEDORES."
Não confunda com baixas reproduções de qualidade! (o que significa isso?) O quadro da gueixa hermafrodita custa 35 reais. Tá barato.
O mais interessante é que os vendedores disponibilizam também uma visualização do quadro em sua sala:
Com luz especial e tudo. Veja que não tem ninguém na sala, apenas a garrafa de vinho e taças. As pessoas preferiram se arremessar da janela do que permanecer em um ambiente com essa coisa:
Se depender dos artistas do Mercado Livre, a Galeria Tosquista nunca fechará suas portas. Mais uma seleção do que há de mais horroroso primoroso no mundo das artes, especialmente para os acadêmicos leitores do Shoe-me:
Título: Flocgel cruel
Técnica: Vela derretida sobre saco de cimento
Esta belíssima paisagem submarina que representa a poluição da natureza. Alguém muito cruel com o habitat aquático jogou fraldas e absorventes femininos usados dentro d'água e os pobres animais, sem saber o que são aquelas montanhas de algodão cheio de flocgel com fluídos e dejetos corporais, reolveram fazer sua morada. O pobre peixinho Nemo está sozinho dentro da fralda Pampers que ele pensa ser uma anêmona, cercado de caca de neném. O golfinho está tão perdido nestes dejetos que nem notou que seu amigo que vem logo atrás é canibal e já comeu uma boa parte de sua nadadeira traseira. Sobrou só um toquinho. Agora vem a parte mais chocante de todas: O artista que "executou" esta obra quer meros R$ 450,00 para transformar sua sala em um centro de ativismo ecológico. O cavalo marinho ali no canto direito tentou de todas as formas fugir desta m*** , mas infelizmente ficou batendo a cabeça na moldura.
Título: Iracema, a índia vesga
Tecnica: mandioca moída com anilina sobre folha de bananeira
Iracema é filha de um soldado americano de boca torta e macheza sem limites. Seu nome era John Rambo. John chegou à floresta amazônica para explodir com a ASFARC, mas acabou se encantando pela índia vesga da comunidade ribeirinha, a bela Tainá. Depois da paixão tórrida, observada à distância por macacos selvagens, o casal teve de se separar (o Trautman chamou o Rambo pro Afeganistão). O resultado desta paixão é a índia vesga Iracema. Puxou a boca de papai e os olhos da mamãe. Ela busca vingança contra todos que querem roubar plantas da floresta para fazer remédios em laboratórios europeus. O problema é que seu pai usou muitos anabolizantes e ela acabou nascendo com todos os pêlos do corpo verdes. É realmente uma grande guerreira, pena que não acerta uma flecha no alvo. Com esses olhos, sua pontaria fica prejudicada. Mas ela continua tentando. Já matou sem querer 5 macacos e 3 passarinhos. Uma hora ela acerta os vilões.
Título: Nus em Santos
Técnica: KY sobre lençol de motel
Jorge nunca tinha ido à uma balada de swing, mas depois de sua amiga sapata Noeleide fazer uma proposta de conhecerem uma casa de troca de casais, Jorge precisou apenas de 5 copos de Drurys pra aceitar a idéia. Jorge no começo estava acanhado, então começaram os shows eróticos e ele foi se soltando. Eram amassos e agarrões, homens, mulheres, nem a faxineira escapou das mãos furtivas do homem. Tanto whisky Passport em sua cabeça, ele estava animalesco. Um senhor, se entitulando artista plástico, pediu que Jorge fosse naquele momento para seu ateliê em Santos. Ele queria eternizar aquela fúria surubalesca. Jorge acordou no dia seguinte, com o anel do Eno, uma dor de cabeça maldita e abraçado a este quadro. Noeleide dormia nos pés da cama. Ao acordar com o grito de Jorge ela viu que era ela na imagem. Dançando maxixe com Jorge, pelada. Ela odiava maxixe, e o pior, odiava pirocas! Os dois nunca mais se falaram. Jorge colocou o quadro do Mercado Livre em lance livre a partir de 20 centavos.
E esta conclui a visita de hoje na Galeria Tosquista. Em breve, nosso acervo ficará ainda maior, aguardem. Obrigada pela visita. A saída fica logo ali, atrás da estátua de papel machê do Daniel Azulay.
Quando fiz a série Especial Dia das Bruxas eu busquei um site que sempre me inspirou muito quando o assunto era fantasia. Celebration fantasias é uma das coisas mais fantásticas (no sentido estranho da palavra) que eu já tive a oportunidade de encontrar.
Mas, como o que é bom dura pouco, o site foi retirado do ar. Não pude compartilhar com meus leitores toda a alegria que eu sentia ao abrir aquela página. As fantasias, a criatividade, a iluminação das fotos. Foda-se Mario Testino, eu tinha Celebration nesse mundo. Eu tinha todas as fotos salvas no meu antigo PC, que veio à óbito depois de um vírus destruir seu HD.
Mas os meninos lindos, gathos, aromáticos e estilosos do Ressaca Moral me deram essa felicidade de novo. E o sedoso Rafael resgatou, do fundo de seu HD as imagens mais impressionantes do século.
Não pelas fantasias toscas, mas pela figura mítica que as exibia, garbosamente posando para as fotos. Era um único homem, mas com o poder expressivo de 50 John Malkovitches.
O homem celebração. Ele é uma festa em pessoa:
CELEBRATION MAN!
É um mago do disfarce. Com seu bigode misterioso é capaz de encarnar as mais diversas pessoas, em um passe de mágica. Agora ele é Robin com algum problema funcional na virilha (desculpe fazer você olhar pra lá).
Mas sua infinita versatilidade também o transforma em...
Batman! O vingador mascarado, seu pior pesadelo, o homem-morcego... Sinta o pavor que este justiceiro causa aos malfeitores. O olhar profundo, a expressão do protetor de Gotham City. Eu não queria cruzar com ele em uma rua escura.
Essa versatilidade vai ainda mais longe. Saindo das ruas cheias de criminosos, nosso Celebration Man consegue, em um piscar de olhos, se transformar em:
Bicicretinha - O palhaço lisérgico. Olha que maroto com esses acessórios de vanguarda. Acho o chupetão listrado tendência.
Falando em vanguarda quero todos leitores agora juntando as mãos e batendo palmas enquanto entoam:
Here I am! Rock you like a hurricane!
O Deus do metal pede passagem. Keith Richards se inspirou nesta foto para ser quem é.
Ah, foram tantas emoções. Incontáveis eu diria. Agora o site simplesmente quis privar os olhos de reles mortais de vislumbrar Celebration Man, distorcendo seu rosto.
O Brasil chora:
Eu nunca me esquecerei.
Celebration Man, você mora em meu coração. Quando vejo uma fantasia tosca, você está lá. Quando vejo um tio de bigode no ônibus, você está lá. Quando vejo um frango assando na vitrine, você está lá.
Agradeço mais uma vez ao sensualíssimo Rafael do Ressaca Moral, um dos blogs mais engraçados que conheço, pelo resgate desta imagem tão importante da cultura nacional.
Existe uma lenda no Mercado livre. Um homem que se auto-estitula "mestre chen". O mito.
Aqui estão suas obras. O lance sempre começa nos 20 reais. É preciso ao menos pagar as tintas acrilex que ele compra na papelaria "Sonho de Papel". Seus trabalhos, na verdade, não têm preço. São feitos para o deleite da humanidade.
Vamos abrir as portas de nossa Galeria de ArteTosquista:
Título: Fazendo a Xuca Técnica: Cola colorida sobre filtro de café Mestre Chen conseguiu captar toda a sutileza de uma moça naturalista, fazendo um banho de assento, direto na fonte. Ela olha sorrateiramente de ladinho para o observador, sorrindo. Diz, com seu olhar maroto "Oi, tudo bem? Eu sou higiênica!". Ela precisa ter cuidado. Existem girinos nesta água. Se ela escorregar, cai sentada naquelas pedras pontiagudas. Por quê ela não se importa? Ela está segura de si. Ela é uma mulher confiante. Mesmo com a cara toda repuxada (a água está fria!). Ela usa Vagisil e faz xuca em água corrente. Sensação de frescor.
Paulo Autran para mim era um ator que que respeitava a própria profissão acima de qualquer coisa. Ele lutava pela integridade da arte. Seu talento era tão grande que depois de vê-lo atuar dava vergonha de imaginar que a o mundo das artes dramáticas hoje é tomado por atores com cara de galã que só sabem interpretar um papel ou ex-BBB's.
O Brasil perde um ponto de referência. Ele era um farol na bruma da mediocridade.
A exposição do último ensaio fotográfico de Marilyn Monroe, tiradas pelo fotógrafo Bert Stern em 1962, começaria hoje no MAM do Rio de Janeiro. Mas as fotos foram retidas no aeroporto de Cumbica em São Paulo porque os fiscais da alfândega questionaram a descrição de "fotos" como obras de arte. Pois é, a alfândega brasileira não sabe que fotografia é arte. Que vergonha.
A abertura da exposição foi remarcada para quinta-feira e a partir de sexta, o público pode ver de perto as 62 fotos no ensaio que eu, particularmente, acho o mais lindo de Marilyn. Essa foto aqui é só um gostinho do que vocês podem ver lá! Um ótimo programa para os cariocas neste fim de semana. Recomendo.
Eu sei que vocês adoram a chochação de celebridades. Mas o dia está fraco hoje e não estou afim de falar sobre as fotos da Britneida de chupeta. Por isso, abro as portas da minha galeria de arte do movimento tosquista e apresento a mais recente aquisição:
Título: Virilha Completa Técnica: Cera Depi roll sobre papel de depilação O artista quis colocar em uma tela o tormento da depilação feminina. A dor em seu puro estado de existência. Apesar da cabeça do personagem ter sido cortada (talvez estivesse deformada demais para captar qualquer expressão) sabe-se que ela acabou de ter os pêlos da virilha removidos com cera quente. Em uma puxada só. Daquelas que sai lágrima do canto do olho. A representação de seus órgãos se retorcendo de dor estão nas camadas azuis e vermelhas sobre a barriga. Depilar a virilha dá pontadas no pâncreas, no rim e no baço. O pote de cera quente está colocado bem à frente, relembrando o observador que ainda falta depilar a parte de trás. Isso chama-se brazilian wax. Quando a depiladora pergunta "vai fazer fio-dental?". E você pensa "ah já que estou aqui, manda cera no meu traseiro". Boa sorte minha amiga. Marcamos a próxima para daqui 20 dias?
Marylin Manson trouxe ao Brasil suas aquarelas, que estarão expostas na galeria do ultra pop Romero Britto. Dei uma olhada nas obras e fiquei pensando que já vi muita coisa pior nessa vida.
Pintar é uma experiência muito bacana. Eu fiz curso de pintura em aquarela e até arrisquei uns quadros, mas ficaram péssimos. Sério, feios demais. Mas não desisti. Não porque quisesse vender aquilo, mas porque é gostoso. Eu sei bordar, tricotar... Essas coisas relaxam. Mas não faço trabalhos impecáveis, é só por hobby mesmo.
Marylin Manson deve pintar por hobby, porque como sabemos ele é mais cantor e às vezes até ator.Os quadros dele tem cara de hobby, só que ele vai vender com a assinatura dele. Nada mais justo para ganhar um troco. As pessoas podem olhar para esse quadro em uma sala e pensar "mas que coisa primária" aí o dono vira e diz "é do Marylin Manson". Então tudo muda de figura.
Este quadro aqui chama-se "She Was Crying Just Outside the House". É tétrico, escuro, me incomoda. Parece um corpo pendurado em uma lança. É monocromático demais, não gosto das pinceladas. Foi elaborado por um homem muito famoso do cinema. Antes de saber quem é o autor, olhe novamente e pergunte a si mesmo se gosta.
Bom, o autor é famoso o suficiente para mudar seu julgamento.
Em um momento sublime do meu dia, encontrei esa maravilhosa obra de arte no Mercado Livre, e resolvi partilhar com meus leitores. É de uma delicadeza quase etérea:
Título: Pega no meu bambu Técnica: Cola Colorida Faber Castell sobre papel almaço.
Uma mulher indefesa foge no meio da mata. Ela foge de uma onça brava e faminta. Durante a fuga, a virgem pura e inocente vai tendo seu vestidinho de algodão rasgado pelos galhos espinhentos das plantas, seus seios firmes e rígidos como bolas de tênis estão suados, seus cabelos molhados, sua boca seca... Ela precisa de ajuda, desesperadamente. No pulo final, a onça arranca sua calcinha, deixando a moça completamente vulnerável. Eis que ela entra no bambuzal, em um último ato de sobrevivência. A virgem se agarra no bambu mais grosso, com uma insaciável vontade de viver. Eis que o observador entra na cena. A moça olha para o observador como se dissesse: "Ei vamos esquecer esta onça, você me deixou louquinha, vem cá!"
É a obra do grande artista Onan da Silva. Um artista de mão cheia (hehe).
Quando o assunto é "pintura do movimento tosquista experimental" há algo que não pode faltar: Palhaços. Estas figuras, tão alegres e vivazes podem trazer sorriso a alguns, e pavor a outros. Eu pessoalmente, sinto um medo incontrolável de palhaços, e nunca me esqueço de uma noite fatídica no Circo Orlando Orfei, back in 1985, onde eu tive um ataque de pânico quando um palhaço quis me pegar e fiquei em estado de choque, que só só foi curado quando minha mãe me tirou de lá e me deu uma maçã do amor.
Mas isso não vem ao caso. Voltemos à discussão artística conceitual no que revolve o universo destes homens e mulheres que enchem a cara de tintas de tons primários, roupas enormes e perucas de canecalon. Vamos ver algumas obras representativas:
Título: Olhar desconfiado Técnica: Resto de giz pastel sobre papel sulfite Chamequinho. Neste quadro, o artista se viu em um dilema: "Agora que eu fiz cagada e desenhei os olhos do palhaço tortos pra cacete, eu devo ou não continuar? Se eu continuar, vou desperdiçar o resto de giz pastel que eu tenho, e que dava pra fazer pelo menos mais um quadro e vender. Se eu parar agora, posso deixar esse troço assim, e fazer de conta que o inacabado é proposital e vender desse jeito mesmo!". E aí está, pronto (??) e à venda no Mercado Livre.
Título: Palhaço com Bócio Negro Técnica: Mista. (é, mista, abri a gaveta de material escolar do meu filho e mandei ver) Este palhaço claramente tem bócio. Seu pescoço está inchado e gangrenado. Seriam os anos de trabalho com a gravata de cetim colorida? Só nos resta questionar. Ele ensaia um sorriso, quase mostra os dentes, mas se contenta em colocar pra fora só as pontinhas. Talvez esses sejam os únicos dentes que lhe restam também, depois de anos vivendo de restos de pipocas carameladas que conseguia ao fim dos espetáculos. Os olhos, realisticamente psicóticos, olham pra você como se dissessem "e agora, você me acha engraçado?". Não. Eu tenho medo.
Neste blog eu não falo só de celebridades ou de moda, mas de coisas que considero relevantes para se ter bom-gosto e senso estético, e de certa forma mostrar um pouco da "trasheira" de quem não tem. Por isso gosto de falar de artes plásticas também.
Existem pessoas que, para aprender a pintar, copiam o estilo de algum artista famoso. Copiar Rafael ou Velasquez não é lá muito fácil. Então a maioria copia aqueles que influenciaram os movimentos expressionistas, modernistas, etc. porque estes possuem traços e pinceladas "teoricamente" mais simples. Tipo Degas ou Van Gogh. O problema é que, apesar de parecer que tais artistas não tinham o preciosismo da pintura clássica, ou seja, eles pareciam não saber desenhar, é muito pelo contrário. Na arte, para desconstruir alguma coisa é preciso saber construí-la perfeitamente.
Então, o sujeito entra naquelas aulas de "pintura com tinta acrílica" da lojinha de produtos para artesanato e acha que virou artista. Só que ele não sabe desenhar. Para facilitar ele pensa "há, um monte de artista não sabe desenhar". Aí ele compra um livro da Taschen que está em promoção na Saraiva e tenta reproduzir um Van Gogh. E me faz isso:
O verdadeiro Van Gogh é este aqui:
Dá pra notar que escolha de cores, força e direção de pinceladas, proporções e elementos estão completamente distorcidos? O cara até enfiou uns velejadores nos barcos de trás. Provavelemente pensou "há, o Van Gogh esqueceu que barcos não andam sozinhos!" e pintou sombras enormes dentro dos barcos. Lá ao fundo, o pintor tosquista enfiou umas árvores para dar "um up" no horizonte. Sem contar que ele transformou o barca da frente em algo que mais parece um chapéu amassado.
Olha, eu entendo que o cara pode estar aprendendo. Mas se o tosco enfia uma cópia malfeita de um Van Gogh (o que já é imbecil) para ser vendida no mercado livre por 200 reais, ele está achando que ficou bom.
E eu estou achando que ficou uma bela bosta. Por 200 reais você compra coisas muito mais decentes pra pendurar na parede. Aliás de graça você consegue algo melhor pra pendurar na parede. Por exemplo, um papel de bandeja do Mc. Donalds com passatempos, pendurado na sala de jantar com uma fita crepe, fica melhor do que esse quadro.
Perto do meu trabalho existe um restaurante por quilo onde as paredes estão repletas de quadros horrendos. Quando eu ia lá na hora do almoço, passava boa parte do meu tempo fazendo análise dos quadros, enquanto meus colegas riam e engasgavam com arroz. Eu deixei de almoçar lá, não pelos quadros, mas porque o tiozão que fica no caixa, o dono do restaurante, tem aquela unha grande no dedo mindinho saca? E é comprida, amarelada, anti-higiênica. Fiquei com nojo de comer lá de novo. A autora dos quadros é a esposa dele, que inclusive coloca os preços na borda das obras. Tinha um lá de um palhaço com um tambor que eu só não comprei porque ela queria 300 reais, e com esse dinheiro eu prefiro comprar sapatos.
Uma coisa que me chama a atenção em artistas do movimento "tosquista" é a inspiração em golfinhos ou temas marítimos. Só no MercadoLivre encontrei vários, e cá estamos fazendo nossa visita mais uma vez a Galeria dos Horrores Acrilex.
Dois golfinhos da espécie "cabeça de nádega" saltam de uma massa azul. É uma pena que suas caudas estejam presas em uma rede de pescar. Apesar da morte certa, os dois estão alegres e sorridentes. Talvez estejam cogitando a idéia que serão capturados para trabalharem nos parques temáticos do Bush Gardens, alimentados dez vezes por dia com peixes frescos e levantando loiras peitudas em suas costas. O mundo ideal dos golfinhos.
Esta espécie de golfinho é uma mutação chamada "golfo-baleia-morsa". O da direita, menor, comeu lixo tóxico e ficou sem olhos. Uma de suas nadadeiras tornou-se pontuda como um furador de gelo, transformando este ser amigável das águas em uma máquina de matar. Se você não se preocupa com os golfinhos, é melhor começar a cogitar a idéia de golfinhos mutantes assassinos vindo bater à sua porta com lanças apontadas para sua cabeça. NÃO JOGUE LIXO NO MAR! NÃO COMA ATUM!
Estes golfinhos estão em uma suruba daquelas. Já leram o kama sutra até de cabeça pra baixo e colocam tudo em prática. Aquele monte de fios brancos perto das nadadeiras, você consegue imaginar o que são? Ora meu inocente amigo, de onde acha que os golfinhos nascem? Aquilo é resultado líquido de uma noitada de paixão. Mas opa, quem é aquele golfinho lá atrás sem olhos? Lembram-se do quadro anterior? Pois é, o golfinho mutante já começou a se reproduzir.
Quem não gosta de ver uma mulher-peixe? As sereias instigam a imaginação dos marinheiros e dos sujeitos que ficam excitados dentro da peixaria. O peixe alaranjado está um tanto quanto assustado com os seios da sereia dos cabelos de anêmona frita. A sereia botou um ovo dentro da ostra, à espera de seu bebê-peixe. Um polvo gigante verde, cujo somente os tentáculos aparecem no quadro, trouxe bolas de basquete de presente para o pimpolho. Pois é meu amigo, agora você já sabe o que acontece no fundo do rio Tietê.
A pergunta "o que é arte" é algo extremamente subjetivo e que fomenta discussões há muito tempo. Marcel Duchamp, o cara que fez um mictório virar "arte" que o diga. Eu, pessoalmente, tento reunir informações históricas sobre o tema em minha cabeça para julgar o que considero arte ou não. É difícil.
Eu não considero Romero Britto arte. Não desmereço o trabalho dele, é extremamente comercial, o cara encontrou um nicho e faz uma puta grana com isso, ótimo para ele. Mas não me diz nada. Nenhum quadro dele me diz nada. São para decoração, um tanto quanto infantis e ardidos aos olhos. São fáceis de digerir. E convenhamos, ele não muda o estilo, ou busca vertentes ou cria algo novo. Ele tem a fórmula e a segue, para sempre, estampando quadros, bolsas, relógios, colchas e toalhas de mesa. (okay, eu odeio arte enfiada em objetos, coisas do gênero "as xícaras de café do Klimt" da revista Caras")
Mas Romero, não o condeno. Como disse ele sabe fazer dinheiro, consumir o que ele produz é fácil e agrada a todos. E ele agrada inclusive os famosos. E como é bem esperto, sabe levar o nome dele na mídia:
Ele pintou a moça. Claro, ela é pop, famosa, tá na Caras. Tá aqui no meu blog também, direto, não é verdade? Uma homenagem pra esse mulher que, enfim, parece querer dizer tanta coisa mas no fim não diz nada. Ela quer ser a Oprah do Brasil. Com programas sobre variedades e gameshows. Enfim, é TV né meus amores. Voltando ao quadro. Se você aí ficou ofendido porque eu não considero Romero um artista de verdade, presnte atenção neste detalhe:
Queridos, ele colou glitter na tela. Na boca e nos brincos. Porpurina mesmo. Sei lá, se alguém joga glitter em um quadro eu já estranho um pouco. Eu fazia isso aos 5 anos de idade.
Eu adorava jogar glitter nas coisas quando estava na escolinha. Certa vez fiz um cartão para o dia dos pais. Desenhei meu pai todo garboso, só o rosto dele, bem másculo e barbudo (papai era muito barbudo na época). Mas faltava um tchans. Aí, desenhei várias borboletas em volta dele, muito coloridas. Mas mesmo assim, faltava algo.
Então eu peguei meu tubo de cascolar e mandei ver na porpurina rosa shock. Entupi a barba de papai de glitter. Quando ele viu a surpresa, ficou encantado "Poxa filinha, o papai tá brilhando né? E tão cor-de-rosa!". E eu respondi "Paiii, você tá chiquetérri".
Na época eu não sabia pronunciar "chiquérrimo".
Quando pintar meu próximo retrato de papai, vou comprar 2 quilos de porpurina prateada. É que ele está ficando grisalho.